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Bufões togados
Mário Drumond
A Justiça brasileira, apesar de seu triste histórico,
sempre reivindicou para si (ao menos) uma fachada de Poder (e uma fatiazinha
dele também, de vez em quando). Agora, nem isso. Aceitam-se os
juízes formados em escolas particulares, às escâncaras,
sob a vil condição de bufões do poder midiático.
A Justiça deixa de ser um poder para ser servil. Ou um ser vil.
Às favas o direito positivo, o direito romano, as letras sagradas
das leis e da Constituição, as fundamentações
lógicas, o contraditório e as razões da ciência.
A antes solene e vetusta magistratura agora rebola no picadeiro dos
déspotas mas não faz rir a ninguém.
Exemplos? Essa palhaçada que estão fazendo com o governador
Roberto Requião, do Paraná. Nem se pode chamar aquilo
de censura à liberdade de expressão. Isso foi na época
da ditadura, e era coisa séria, eles acreditavam mesmo nela.
Agora é só palhaçada de juízes e desembargadores
tentando justificar o despotismo imperial. É que Requião
ameaça o Império até quando dá receitas
de ovo frito na TVE-PR, para nos lembrar (e nos alertar) daqueles tristes
tempos das receitas de bolo nas primeiras páginas. E os “cachorros
do Império” da mídia atiçam os bufões
togados a mostrarem seus serviços pit yankees.
Outro que deve estar ameaçando muito o Império é
o combativo jornalista e vereador do Rio de Janeiro Pedro Porfírio.
Os “juízes” não deixam seu mandato em paz.
Processos na justiça comum, sem nenhum fundamento, conseguem
liminar para tirá-lo temporariamente da Câmara, e já
é a segunda vez que isto acontece. A mídia finge ignorar.
É um atestado de incompetência total da nossa magistratura
o fato de não se declarar incompetente em processos claramente
atribuíveis à competência da Justiça Eleitoral,
onde, em ambos os casos, eles não teriam sequer um provimento
de primeira instância. E a Justiça Eleitoral existe para
quê? Para também rebolar no picadeiro? Não tem graça
nenhuma.
ALBA – já ouviram falar nela?
Alternativa Bolivariana para as Américas, ALBA. Reuniu-se em
Caracas, neste último fim de semana, a VI Cúpula da ALBA.
Venezuela, Bolívia, Cuba, Nicarágua, representantes de
quase todos os países latino-americanos e dos principais movimentos
sociais do continente (inclusive dos EUA e Canadá) formam este
bloco econômico-cultural alternativo, que cresce a olhos vistos.
Fundaram o Banco ALBA, onde vão ficar boa parte das reservas
financeiras dos países membros (atualmente depositadas no Banco
Mundial, nos EUA) e impulsionaram a Petrocaribe. Para se ter uma idéia,
sem a Petrocaribe todos os pequenos países caribenhos e da América
Central (incluindo Nicarágua, Guatemala e Honduras) estariam
falidos ou à beira da falência com os preços do
petróleo nas alturas em que se encontram. A Petrocaribe foi criada
para permitir que o petróleo venezuelano seja permutado por bananas,
tomates, açúcar, vacas, porcos e o que mais aqueles países
possam dar de serviços e mercadorias em troca da preciosa matriz
energética, que, nessas transações, é cotada
a preços fixos, muito abaixo dos “de mercado”.
São itens que fazem uma falta danada na Venezuela com a explosão
do consumo de alimentos causada pela revolucionária distribuição
de renda (os venezuelanos comem hoje quatro vezes mais do que comiam
há dez anos, por causa da introdução das camadas
“D” e “E” da população nos hábitos
alimentares antes só possíveis às classes média
e alta) e da sua incipiente agroindústria. Que só agora
começa a ser impulsionada, em bases socialistas, não capitalistas,
portanto sujeitas a um processo mais longo em seu desenvolvimento, por
ser também um processo social, cultural e ideológico e
não apenas econômico-industrial. Somente em 2015 a Revolução
espera conquistar a auto-suficiência alimentar para o país.
Há dez anos, a Venezuela importava até alface dos EUA,
e os tomates vinham embalados um a um em papel celofane, como se fossem
bombons.
A ALBA é o proscênio do século 21, e vários
países da África, Ásia, Oriente Médio e
Oceania estão enviando observadores para conhecê-la de
perto. Os que estão de fora ainda estão no século
passado. Infelizmente, o Brasil está de fora – porque quer,
só por isso!
AWOL – conhecem?
American way of life, AWOL. Casas e apartamentos são abandonados
pelos infelizes ex-proprietários devedores de hipotecas que não
podem pagar, e que deixam as chaves nas respectivas caixas de correio
para facilitar o trabalho dos oficiais de justiça. De dentro,
levam tudo o que possa valer alguma coisa nos mercados de segunda mão:
louças, ferragens, portas internas, utensílios de eletricidade
e até vidros, fios e canos de água arrancam, quando não
levam paredes inteiras, se feitas de madeira. Mas abandonam lá,
solitários, seus animais de estimação. Os outrora
felizardos freqüentadores de pet shops, pet clínicas e pet
spas ficam ali, à míngua de água e comida, na agonia
lenta e dolorosa da sede e da fome, se não tiverem a sorte de
os homens da saúde pública os encontrarem para lhes dar
a injeção de misericórdia e encaminhar seus cadáveres
a incineradores.
As entidades dedicadas ao problema já estimam em dois milhões
o número de residências que se encontram em tal estado
em todo os EUA, e algumas, como a OMS, alertam que é só
o começo, pois o número aumenta vertiginosamente a cada
dia que passa.
A grande maioria dos ex-proprietários, sem outra saída,
concorrem a aglomerados nas periferias das grandes cidades, onde habitam
uma nova espécie de favela; um caos anti-estético de materiais
plásticos e caixotes coloridos no entorno dos megalixões
de onde tentam reciclar coisas que possam trocar pelo pão de
cada dia na informalidade da vida econômica e na marginalidade
da vida social. Porém, longe do inferno das hipotecas.
O dinheiro que falta para causar a lenta destruição de
bairros inteiros de cidades dos EUA é o mesmo que sobra para
alimentar de bombas os aviões dos EUA e Israel na rápida
destruição de bairros inteiros de cidades do Iraque, Afeganistão,
Líbano e Palestina.
AWOL é o cenário tenebroso e macabro do fim de um século
que já passou mas ainda não terminou de infernizar a Humanidade.
A Gazeta, de leve
A Gazeta começou este ano meio de leve, um tanto devagar. Alguns
leitores já se manifestam. Mas foi um janeiro atípico
e mais atribulado que o normal para este gazeteiro, além do que
certas coisas estão por acontecer, e ele espera um desfecho para
depois dar o recado, em novos furos de reportagem. Aguardem!
Abraços
Mario Drumond
Revisão: Frederico de Oliveira (para quem curte textos bons e
bem escritos, recomendo o blog de Frederico – O Apito - no endereço
http://www.thetweet.blogspot.com)
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